sábado, junho 08, 2013

Sobre amar

"Não é que se pense que o amor não é importante. Todos sentem fome dele; assistem a infindável número de filmes sobre histórias de amor, felizes e infelizes; ouvem centenas de sovadas canções que falam de amor; e, contudo, quase ninguém pensa haver alguma coisa a respeito do amor que necessite ser aprendida. A maioria das pessoas vê o problema do amor, antes de tudo, como o de ser amado, em lugar do de amar.
(...)
Dificilmente haverá qualquer atividade, qualquer empreendimento que comece com tão tremendas esperanças e expectativas e que fracasse com tanta regularidade como o amor."
(Erich Fromm, A arte de amar, 1961)

Comprei uma asa delta pra tentar um voo
Tentei, não consegui, mas vou tentar de novo
O problema é que eu não sei como subir no morro
E é preciso estar no alto pra se atirar
(Apanhador Só, Cartão Postal, 2012)


a leitura combina com esta música

Poderia ser um título de um livro de auto-ajuda, mas, longe disso, A arte de amar é uma obra da psicanálise. Trata desse esforço cotidiano, diuturno, de ser feliz e, às vezes, de fazer alguém feliz. Não raro, como refere Fromm, o empreendimento falha ante a falta de compreensão do seu real sentido. O grande desafio quase sempre parece consistir em ser amado, tornar-se amável, quando a lógica é diametralmente oposta: é fundada na escolha por amar o outro. Este deveria ser o ponto de partida.
Na realidade, custa-nos decidir pelo amor. É que não se cuida de simples sentimento, que corre nas veias livremente e flui ar afora. Trata-se de uma decisão, escolha diária. Faz-se necessário subir a ladeira íngreme, que é a dificuldade de ratificar o nosso "sim" ao amor. É pena - e penar -, posto que quase sempre dói.
Se, como ensina a canção, "é preciso estar no alto para se atirar", torna-se cada vez mais raro quem ouse sofrer o esforço da ladeira para, enfim, alçar voo; e é assim que o sentimento, embora pretensioso, costuma fracassar regularmente.
Não seria necessário falar tantas coisas não fosse o fato de que lições evidentes, acerca de assuntos já exaustivamente tratados, ainda se fazem tão imprescindíveis. Não aprendemos e talvez nunca venhamos a ter a certeza de algumas verdades como a de que o amor nos ultrapassa, vai além da vida. Transpassa a respiração, atravessa a alma. Ganha o infinito porque, embora seja decisão, é, sobretudo, fundado na liberdade, de quem, escolhendo amar, liberta as amarras que o prendem a si mesmo. E voa.
Nem todos conseguirão ir tão alto, muitos irão fraquejar na subida. Quanto aos que persistirem, será sempre surpreendente ter o vento no rosto, sentir-se com asas e perceber que nada faria tanto sentido quanto ir até o fim.

domingo, janeiro 06, 2013

Ano e nuvens

Et sous le firmament
On oublie les règles el les acquis
(Coralie Clément - L'hombre et la lumière)

- E quanto a 2012?
- Eu diria que foi um daqueles anos que marcam.
- Foi bonito.
- Sim... Primeiro a alegria e o alívio de quem alcança uma meta. Depois, outros planos concretizados. Então, as mudanças, as distâncias, os desafios; os desertos e  beleza que neles encontramos mais tarde. Além, é claro, da consagração de um amor que resiste às ausências e se renova, sempre imprevisível como uma criança travessa, que, no fim, inevitavelmente encanta com seu sorriso pueril.
- Foi tudo isso?
- Foi mais. Este ano que passou foi como decifrar as nuvens. Ganhando formas inesperadas, maravilhou com cada nova surpresa, para a qual eu apontava o indicador sorrindo, descobrindo a novidade, quando, sem mais, surgia mais outra forma, outro quadro igualmente fascinante. É. O ano de 2012 foi, assim, um contemplar de nuvens.
- Que graça!
- Foi tudo graça mesmo, na dupla acepção da palavra: algo que fez sorrir e um dom divino - um feliz presente.

domingo, novembro 11, 2012

Bacon, Blitz e Chanel

Repara na folha
que o vento carrega.
Ela vai, tão natural.
Olha a folha, olha
então te sossega
Tu és bem assim, bem igual.


Descia as escadas, dobrava à esquerda e seguia até o fim da rua. Alcançava a 15 de Maio, subia a Afonso Reis, num trajeto total de exatos sete minutos. 
Com as pernas que já caminhavam com vontade própria, tamanho o hábito, às 17h fazia o percurso inverso. Em casa, tirava os sapatos, ligava a TV no programa de entrevistas diário, comia qualquer improviso e, às 21h, já era pedra na cama.
Às sextas, o happy hour era com Rita e Ângela, ambas no auge dos trinta e no ponto alto da desilusão. Mas Mônica não.
Para ela, havia três coisas que lhe eram realmente caras: bacon, o disco da Blitz de 1982 e sua bolsa Chanel que adquiriu após um ano e dois meses de economia. No mais, nada.
Não lembrava de ter se apaixonado, exceto pelo professor de Contabilidade Pública, durante a faculdade. Foi amor platônico, naturalmente, que mal chegou a ser descoberto por ela mesma. Divulgada a primeira nota da disciplina no semestre, o amor regrediu ao grau zero, como sua pontuação no exame e, felizmente, a moça voltou à rotina.
Adaptava-se, dizia, enquanto as amigas, entre goles de chope e filés com fritas, sonhavam com um amor um pouco mais consistente que a espuma daquela bebida.
Chorava uma vez ao ano, no máximo, cortando cebola, talvez, nada com muitos sentimentos.
O fato é que havia se adaptado e, se algo saía do lugar, adequava-se mais uma vez. Não importava a insipidez que o mundo ganhava assim. Da mesma maneira, irrelevante se essa sua contínua adaptação a furtava da felicidade que, bem ou mal, também é um desequilíbrio do cotidiano. O bom é que estava segura na sua vida tranquila de produto do meio, nas delícias do comodismo irrefletido.
Toda essa segurança soava como Blitz, tinha gosto de bacon e era bela, belíssima, como sua linda Chanel: um alívio.

terça-feira, outubro 02, 2012

when the snow falls

 The snow falls `round my window
But it can`t chill my heart
Weary Blues - Madeleine Peyroux

 
Estar ali, perante o nada, parecia conferir-lhe algum sentido oculto. O infinito, cuja dimensão seus olhos não eram capazes de captar, contido em todo aquele céu negro, era dotado de uma espécie de efeito anestésico, alienante, bom e essencial.
A noite, ela sabia, era sempre nostálgica, repleta, portanto, de perigos pontiagudos, farpas de doces memórias perfurantes, lindas e doloridas lembranças, estas que causam tão forte dependência química e emocional.
Permanecer era um exercício arriscado, pois qualquer brisa leve poderia ser um caminho para recordar o amor, sonhar com planos irrealizáveis, inevitavelmente frustrantes. Sim, ela sabia. Qualquer movimento em falso seria fatal e olhar ao redor poderia ser tão terrível...
Costumava, então, abrir bem os olhos à lua, que, por ser absolutamente material e completa, era seu paradigma de autossuficiência. Imóvel, sóbria, fria. Contemplando-a, ensaiava um sorriso esperançoso, de pupilo que, desastrada e ingenuamente, quer copiar o mestre, em um caricato ato de credulidade.
A canção, porém, alonga-se: o gelo cai, mas o coração, por teimosia ou vocação, nunca desaquece. É a lei.

sexta-feira, junho 01, 2012

chega de saudade, chega com saudade

A falta de toque, de cheiro, de materialidade traduz o que se entende por saudade. Saudade é mesmo isso, é toda essa ausência, o vazio que me toma o íntimo, o silêncio que, calado, pesa. Saudade é não ser, não estar, são essas reticências sem fim, indefinidas, inquietantes.
Então saudade se torna impaciência, ansiedade, tique-taques de um relógio lento demais, cujas horas se demoram, avançam como caminhassem para trás. Torna-se a saudade dias riscados no calendário, contagens regressivas constantes ou uma respiração nervosa, que, do meio para o fim, não vem. Pára. E, de fato, se a saudade é como a respiração, a respiração é como a saudade, paralisando tudo em volta.
Chega mais um dia e o nó na garganta está ali. Certifico-me de que a ausência é persistente e não menos cruel. Fito os meus dedos, já cansados de contar o tempo e vejo neles nosso elo. Creio, então, que logo mataremos a saudade, com um veneno ou coisa afim que, calmamente, retire-lhe a vida, roubando-lhe o ar. Enfim, serei mais eu, seremos mais nós dois, sem saudade ou só com a lembrança dela, memória de quem já se foi.


sexta-feira, março 16, 2012

por entre os dedos

música para leitura



havia algo de escorregadio 
de ensaboado
de esguio
de leve demasiado
que se lhe escapava entre os dedos.

Já recebera o diagnóstico. Tratava-se de dependência emocional, carência afetiva ou, como dissera a amiga mais próxima, desespero. E não havia motivos para tanto - continuava a amiga - era apenas mais um dos relacionamentos que dava errado, como todos os outros. 
Preocupante, pois o problema não poderia ser o resto inteiro do mundo, mas era ela, era a moça o problema, o grande desastre não era ninguém, outro alguém, era ela. 
Começava, apegava-se, cercava o rapaz de cuidados, construía-lhe uma cerca ao redor, isolava-o do mundo, sufocava-o, via o fim. Chorava e mais uma vez começava, seguia os mesmos trâmites e encontrava a companhia da frustração, sempre da mesma maneira, quando outra vez chorava. Corria riscos, entregava-se, fazia-se transparente, franca, no entanto, algo sempre lhe fugia ao controle como tivesse vida própria, desregulava o conto de fadas e a receita do bolo falhava.
A amiga retrucava que era o cheiro do desespero que ela exalava, era o nome do desespero que houvera escrito na própria testa para quem quisesse ver. 
Revoltada, jurou não mais amar, não se envolver com quem fosse, havia cansado dos romances sempre tão distantes dos filmes. As suas histórias davam trabalho, roubavam-lhe o sono, a concentração, sempre curtas e dolorosas.
A amiga assegurava, insistia que a culpa era do desespero tão evidente, repetindo sua opinião em tom de repreensão...
Eis que surge um outro rapaz, tão diferente dos outros - curiosamente sempre era esse o primeiro pensamento da moça -, tão diferente! Agora há de dar certo, claro. Evidente que sim! "Como pude pensar em desistir do amor?".
A amiga não tira da cabeça que o desespero ainda é patente e se impressiona que a moça ainda ouse tentar. Acha que a verdadeira virtude não é ser corajosa mas tonta o suficiente e confirma a veracidade do diagnóstico: a dependência emocional deve mesmo ter algo de vício.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Entre o Código Penal e a natureza





Um texto para os iniciados nas letras jurídicas

Quando ela me veio visitar, envolviam-me a emoção e paixão do artigo 28 do Código Penal, aquelas que, pela letra fria da lei, não excluem a culpabilidade.
Não havia saída ante o fato de que todos somos criminosos por amar, culpáveis por nos deixarmos possuir pela emoção. Infratores todos somos, incluso o pequenino animal visitante. A joaninha foi partícipe, induzindo-me à escrita, convencendo-me a incorrer no grande crime que é a poesia. A miúda me fez errar, cair na reincidência de voltar a escrever.
É verdade que a emoção e paixão não excluem a culpabilidade, pois, de mim, era exigível conduta diversa, era imperioso que houvesse resistido à tentação do erro, ao encanto das letras. Não resisti, porém, e nada me exime da responsabilidade penal.
Do mito da ressocialização sou a maior prova. Cumprida a primeira pena, retorno à delinquência, volvo ao crime sem remorsos, por não conseguir me desvencilhar do encanto que há em saber-me avessa às expectativas sociais. Criminosa até que provem ao contrário - oposta, pois, a tudo, mesmo à presunção de inocência -, a palavra é meu crime, minha pena, meu algoz.

segunda-feira, abril 25, 2011

samba em prosa




Não fossem as incontáveis coincidências terem acontecido conosco, não haveríamos de crer, custaríamos a aceitar a possibilidade de havermos perdido a cadência habitual das nossas vidas em razão de uma enxurrada de sentimentos repentina a revirar nosso íntimo de maneira tal.
Decerto tenho caído na tua graça, naturalmente, como quem cai no samba e se deixa levar noite adentro. Tocando, tu me tocas o coração, fazes música em mim e, tocando-me a mão, tu me convidas para dançar. 
Longe da razão, encanto-me quando cantas despretensioso, dedilhando, olhando-me malandro, sinuoso como a melodia. No teu ritmo, escorregam leves os meus pensamentos, dançarinos perseguem a tua música, envolvidos no teu som, deslizando até ganharem o infinito.
Começamos de Chico compartilhando a Homenagem ao malandro, sem que pudéssemos então prever que, em verdade, homenageávamos todas as compatibilidades que assomavam diante de nós, tornando tão bela essa nova história que agora nos empenhamos em musicar.
Não quero desafinar, não posso descuidar do compasso, não vou estragar a canção que temos acertado com tanto esmero. Cada nota e o menos perceptível acorde tenho guardado, posto no pentagrama, cuidado de cada pequeno grama, de toda minúscula gota do teu sorriso, do teu barulho bom.

sexta-feira, março 11, 2011

um pedaço seu

Deixe um pedaço seu
num recado, desenho, num retrato
ou eu
eu nem sei.
Deixe um pedaço seu
numa frase, num abraço, fraise, que me cale
e eu
eu já sei.




Eu dançaria, por horas a fio, no diálogo quase nervoso, asfixiante como o ar que é puro demais. Mais uma vez, sem rodeios ou disfarce, eu beberia de você, com uma sede leve e constante, pousando em ti meu olhar ansioso, como quem tivesse medo de ver a fonte se esgotar. 
Ainda novamente eu escutaria uma música marcante, deparando-me com você, reflexo meu, sentindo igual, dividindo comigo o que tínhamos de mais precioso: nossas ideias secretas, pensamentos íntimos e sonhos, tudo espécies da loucura que nos assola, humanos que somos, eternos que somos.
Eu te veria transbordar mais, derramando tuas águas no papel, criando formas, traduzindo sentimentos, traçando irrealidades a ponto de fazê-las concretas em preto e branco. Eu te contemplaria como o mar de águas violentas e sem fim, surpreendendo-me com a calma que nasce do caos, que tuas mãos reduziriam a contornos negros. Eu ouviria, com contentamento, tua concretude inventada, teus planos mitológicos, tuas explicações do mundo sem pensar em discordar e já discordando sem pensar.
Eu esperaria um pedaço seu, deixando um meu, sabendo que mais à frente nos encontraremos. Por estradas diversas, chegaremos, fatalmente, a um lugar em comum para o próximo abraço apertado.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

de passagem

música para a leitura








Chegamos na cidade pelas ruas pacatas do bairro da Novidade com suas casinhas simples, de muros baixos. Vimos crianças a brincar, famílias inteiras nas calçadas durante as tardes dominicais e, à noite, os clássicos namoros ao portão com furtivos beijos atrapalhados. Permanecemos ali por dias, quando nos propusemos a seguir. 
Adiante, adentramos o bairro da Amizade, onde experimentamos a sensação de precisarmos um do outro. No parque do bairro, de igual nome, sentamo-nos para observar os transeuntes cheios de cumplicidade e afeto, amigos com tudo o que a amizade oferece. Era-nos um convite. Aceitamos.
A caminho do próximo bairro que visitaríamos - tínhamos em mente chegarmos ao bairro da Aventura -, rumamos pela estrada que estava às margens do Lago da Conquista e o efeito foi instantâneo. Naquele momento, no ímpeto de uma troca de olhares decisiva e decidida, partimos em direção ao bairro do Amor com pressa, sem que precisássemos dizer qualquer coisa.
Era um bairro absolutamente lindo, de muitas cores, embora de patente suavidade. Ali contemplamos a confusão de amadores, própria dos novos amantes, com nosso sorriso, a um só tempo, de compaixão e identificação.
Ruas alegres, cujos nomes eram títulos de canções: Rua Último Romance, Rua Vitrines, Desafinado, Belle de Jour... I Wish You Were Here, Luz e Mistério, Better Together, Eleanor Rigby ou Calle Un Lugar en Tu Almohada, todas organizadas em pequenos distritos, segundo os respectivos intérpretes. Ao entrarmos em cada uma delas, automaticamente se iniciava a canção e, nos cruzamentos e esquinas, tínhamos o silêncio dos apaixonados. Árvores, brisa fresca e cheiro de flores por toda parte, era assim o bairro do Amor.
Por outro lado, havia o grave inconveniente de se tratar de um bairro demasiado confuso, com ruas tortuosas, algumas de uma estreiteza admirável, outras absurdamente largas, praticamente impossibilitando-se a travessia. Cruzavam-se entre si de forma incompreensível, num emaranhado assombroso e desafiante. O perigo nos espreitava e perder-se era quase certo. 
No vislumbre doentio que aquele bairro nos causava, recordo-me da derradeira ocasião em que estivemos juntos para nunca mais, no exato ponto onde se cruzavam a Rua Samba do Grande Amor e a Rua Fotos na Estante. Desde então, foi-me impossível saber seu destino, fato este que, de aparentemente trágico, mostrou-se providencial. Segui em frente até que finalmente encontrei um sobrado à Rua Novo Amor que, arrebatada, aluguei. Radiquei-me no local com a sorte de a janela da frente ter uma incrível vista.
Quanto a você, se de passagem, não hesite em entrar para tomarmos um chá ou simplesmente ouvirmos a canção que vem da rua, pois é verdade que está tudo novo como na música.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

olhos de strike



Naquele dia, punha em ordem meus armários, papéis, livros, revistas e lixos em geral. Surpreendia-me com os achados como quem descobria monumentos paleozóicos, documentos históricos. 
Eram folhas amareladas, fotos com rostos quase esquecidos, grafias insondáveis, de autores, por pouco, igualmente indecifráveis. O mais doloroso, no entanto, não era a antiguidade de todas aquelas velharias, mas saber que eram minhas. Minhas recordações, minhas pequenas memórias, de um tempo que, dia desses foi ontem e agora se mostrava passado remoto. E porque tudo aquilo se via tão antigo, tão gasto, tão pó, vi que também eu havia me tornado vítima dos anos. Achava-me, transcorrida uma vida de tantas horas, velha ou simplesmente uma sombra decadente do que, um dia, tinha sido.
Na juventude, não podia me considerar a mais bela, embora guardasse no semblante a certeza de uma graça bem elogiada. Da mesma forma, não obstante carecesse de genialidade, jamais me faltou a perspicácia que um à época namorado detectou nos meus olhos, para ele considerados como duas sagazes bolas escuras, inquietas e rígidas. "Olhos de strike", como costumava dizer.
Naquela ocasião, achei brega, piegas, feio, enfim. Hoje, porém, agradar-me-ia ouvi-lo outra vez. Os tais "olhos de strike", que simplesmente derrubam aquilo que esteja adiante, quisera ainda tê-los, pois a própria sequência ininterrupta dos anos se encarregou de apagá-los, retirando-lhes a densidade e a força.
A idade dói, meus anos pesam. Cá estou, idosa e caquética, com o fardo da vida inteira, mas sinceramente realizada em carregá-lo, satisfeita com toda a alegria e toda a tristeza passadas, com tudo que ganhei sabendo que perderia - e, de fato, perdi. Afinal, assim haveria, feliz e irremediavelmente, de ser. 

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

opção dois

- Nesse caso, nós só temos duas opções: ou ela é louca, ou você está mentindo.
- Eu sempre prefiro a segunda opção. 


Então li um trecho de Simone de Beauvoir, porque achei adequado e também por sentir que eu precisava dizer-lhe alguma coisa. Era duro ver a realidade diante dos olhos, sempre tão descarada, ao passo que outros insistem em manter a cegueira à plena luz:

"Lembra-se quando fazíamos troça das mulheres que se deixam sacrificar? Continuo a pensar, apesar de tudo,  que não sou feita da massa com que se constroem as vítimas."

Foi-lhe um tapa na cara, talvez, pois me olhava pálida. Era preciso chocá-la, porém, eu sabia. Sempre soube tantas coisas e tantas coisas se tornavam descobertas, cálidas novidades, azedas e delicadas, que, faceiras, exibiam-se a quem quisesse admirá-las. Ah, sempre soubemos, eu, você e Simone de Beauvoir que só há dois tipos de mulheres: as enganadas que um dia vêem e as enganadas que cegas querem permanecer.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

só

Ya pasó
Ya he dejado que se empañe
La ilusión de que vivir es indoloro
Que raro que seas tú
Quien me acompañe, soledad,
A mí, que nunca supe bien
Como estar solo
Jorge Drexler




Sentei-me e pedi café acompanhado dos biscoitos chamados "biscoitinhos ingleses", ainda que eu não corcordasse com o nome deles. Comi e bebi pensativa, esquivando-me corajosamente dos olhares, fossem piedosos, interessados ou simplesmente curiosos. Categoricamente, ignorei todos, detida na minha xícara, que se mostrava silenciosa e sóbria como a mulher que queria me tornar.
Havia assumido, com paixão, a condição que me era de direito: a de ser só. Fi-lo sem lamentos nem dor, agarrada à certeza de que nisso residia a plenitude e a serenidade sonhada por tantos, mas abraçada apenas pelos fortes, que já não lutam, cega e estupidamente, contra a solidão.
Era preciso amar a si na medida exata. Nem mais, nem menos. A receita era mais perfeita que a dos biscoitinhos ingleses e eu estava disposta a prová-la.
Não bastava o amor próprio suficiente para se suportar. Fazia-se imprescindível, antes, gostar de estar consigo, mas na proporção adequada para se evitar um alheamento do mundo ou uma migração ao universo dos espelhos, onde tudo que se vê é reflexo e o reflexo do reflexo até que o ser se torna apenas um reflexo doente e delirante.
Equilíbrio era a palavra que combinava imensamente com aquele café e casava com os biscoitos. Tudo isso, por fim, afrontava os olhares, desafiando aqueles que não admitem a solidão menos por ela mesma que por jamais haverem tido a ousadia de experimentá-la.
Pedi outro café, pois melhor companhia eu nunca havia encontrado. Alinhei os cabelos, olhando-me em um dos espelhos que ali estavam dispostos por toda parte para causar a impressão de maior espaço. Também eu me senti maior e a rua, assim como os tipos apressados na calçada, já pareciam tão pequenos.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

conversa de mãos dadas

- E então? O que eu te disse naquela ocasião?
- Muitas coisas... Tantas que seria imposível dizê-las todas.
-Mas eu não falei contigo por dias.
- Você dizia sem falar.


Há momentos em que as palavras atrapalham. Talvez por isso, naquela altura da vida, já se faziam elas desnecessárias e até incovenientes. Os olhos míopes enxergavam muito além do que podia a linguagem descrever e os rostos gastos pelo tempo faziam-se expressivos como nenhuma frase. Era a convivência de uma vida conjunta e sólida, era o amor.
As inconstâncias dela não o surpreendiam, ao passo que as manias de velho, que ele demonstrava desde seus vinte e alguns anos, tampouco eram novidades que a encontrassem desprevinida. Adaptaram-se um ao outro com a incrível desenvoltura de quem confia no amor não obstante os percalços, tendo-o como decorrência direta da emoção e da razão, numa mesma medida: perfeitamente bela e matematicamente precisa, por não serem a estética e o cálculo excludentes, mas, antes, complementares.
O equilíbrio pleno não era, por certo, absoluto, como não poderia ser, imperfeitas que são todas as coisas. No entanto, foi nas imperfeições e confiança mútuas que encontraram o sentido de tentarem a felicidade, encoberta por falhas humanas e defeitos dos quais nenhum mortal escapa.
Naquele dia, como em tantos outros diálogos de tato em que as mãos enlaçadas conversavam entre si enquanto os olhos de ambos se conservavam distantes, perdidos na beleza do amor ido e do vindouro, ela ouviu, sem que ele precisasse dizer, o quanto era grato por tudo, enquanto as mãos dela lhe falaram que, com ele, fora e seria a mulher mais feliz.
A conversa de mãos ecoava no horizonte, preenchia os corações do casal. Estavam tão convictos do vivido que nada lhes parecia tão certo quanto tudo que lhes havia ocorrido, incluso os erros que os punham um diante do outro, frágeis e desnudos. Mudos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

o mundo, querida, é assim

As palavras lhe tinham ficado atravessadas na garganta na noite anterior. O medo das consequências das frases impensadas o fez vacilar e, hesitante, calar resignado ante a tempestade de acusações. Deitou ao lado dela, submisso. Olhos baixos, fingiu dormir. Na madrugada, porém, tateou à procura de um papel para registrar seus sentimentos e se fazer entender.
Na falta de termos, copiou, com o máximo de fidedignidade que a memória lhe permitiu, um trecho do último romance que havia lido, o "O amor nos tempos do cólera". A ideia de usar as palavras alheias para falar do que o afligia se fundava mais na ilusão de ter um bode expiatório, personificado no autor da obra, que na exata correspondência entre a narrativa e a vida real.
Estava descrente, embora não amargo;cético, ainda que não a ponto de se tornar desagradável. Tinha, para si, a máxima "A desilusão se aproxima mais de uma postura realista que desistente". De fato, não havia desistido de tentar, mas, talvez, de tentar daquela forma.
Acostumava o coração enquanto deslizava a caneta entre os dedos, respirando a brisa que corria janela adentro, como quem fugia das fracas luzes da rua. Consolava-se no silêncio que ali só se ouvia às três da madrugada, quando os passos ao redor cessavam e a cidade dormia um sono angelical, que a todos vinha: feios e belos, bons e maus, pobres e ricos, amantes e desacreditados.
Em boa, não obstante apressada caligrafia, pôs no papel:

O mundo, querida, é assim. Não devemos contrariá-lo: "Acabavam de celebrar as bodas de ouro matrimoniais, e não sabiam viver um instante sequer um sem o outro, e o sabiam cada vez menos à medida que recrudescia a velhice. Nem ele nem ela podiam dizer se essa servidão recíproca se fundava no amor ou na comodidade, mas nunca se haviam feito a pergunta com a mão no peito, porque ambos tinham sempre preferido ignorar a resposta."

Quis, ainda, completar, dizendo que estava convicto de que muitos que encontram amores asfixiantes - era assim que costumava se referir às paixões arrebatadoras - terminam sem eles, casando-se com qualquer estabilidade, contraindo matrimônio com qualquer certeza. Bem assim, quis acrescentar que a imensa maioria escolhe seu destino como quem compra um apartamento ou troca de carro: avalia os valores no mercado, observa os quilômetros rodados, os metros quadrados, a localização... Uma pequeníssima parte faz outro caminho, entregando-se por completo aos mandos e desmandos cardíacos. Ainda os mais ousados correm riscos, sujeitos a toda sorte de surpresas que podem desmoronar, de forma sempre mais dolorosa, o castelo de sonhos.
Partia resoluto para o lado dos covardes. Sentava-se, agora, em par com os acomodados sem grandes remorsos ou crises existenciais, o que lhe parecia muito justo e humano.
Antes de despontarem os primeiros raios de sol, apressou-se em deixar o escrito em um lugar visível, não sem antes colocar em letras miúdas:

"Bem ou mal, nosso caminho é a felicidade."


quinta-feira, novembro 18, 2010

há quem ame (a quem ame)

Quem quer que ame
queira você amar
queira você gostar
de querer
Ame por querer
ame por não escolher
quem você amará

Ame e, com você, leve
o que eu levo e você levará
o que quer que leve
em seu coração leve
sem peso, sem medo,
sem pesar

Leve, bem leve
quem quer que ame
ame bem, leve amor
quem quer que ame
ame, bem leve, amor.

sexta-feira, setembro 24, 2010

por mais uma estação



Talvez por coincidência ou, quem sabe, por vontade do destino, apenas tardiamente me foi possível perceber a data que o calendário marcava. Não dei por conta, de imediato, do teu aviso.
Ontem, equinócio de primavera, a lua, anunciando a estação que dava as caras, fazia-se formosa no céu. Era vinte e três de setembro, ah, perdoe-me, era início da primavera e custei a notar.
É que a vida anda agitada e pensamentos tolos ocupam todo o espaço, pouco resta para as boas lembranças. Os últimos acontecimentos afugentam a um canto estreito da mente os fatos vividos naquele vinte e três do passado, de modo que chega esta data tão mansa, sem se fazer anunciar por trombetas, que quase, por muitíssimo pouco, passou-se esquecida.
Agora, puxo o fio da memória. Como cordel com seus folhetos pendurados, chegam-me as lembranças e sinto, descontroladamente, vontade de sorrir.
Lembro-me do desconcerto daquele dia vinte e três do mês de setembro. Recordo-me de nossa timidez mútua e dos gestos descompassados, do tremor nas mãos e rubor das faces. Ocorre-me o medo que transparecíamos a cada movimento receoso, à espera de contrapartida, a cada riso nervoso. Como esquecer nossa insegurança e incerteza recíprocas? Guardávamos em nós a confusão de sentir, de uma só vez, a dúvida sobre o querer do outro e a convicção do querer próprio.
E o filme corria solto na grande tela, longe dos nossos olhares, mais distante ainda dos nossos pensamentos. De que falaria ele? Não nos importamos em descobrir, pois pairava outra dúvida mais inquietante. A minha, por certo, eras tu.
Já me tinham ensinado as aulas de geografia que, em ocasiões como aquele vinte e três, os dois hemisférios do planeta recebiam igual calor. De fato, se eras uma banda do mundo, eu era a outra e o calor que recebíamos era absolutamente idêntico, vindo de uma só fonte.
Foi assim que naquele equinócio, fantasticamente, senti toda a primavera num mesmo dia. Diante dos fatos, eu não poderia jamais cogitar outra estação mais colorida e perfumada.
Religiosamente, comemorei a data ao longo dos anos, como um feriado, uma festa de santo. Era o dia vinte e três sempre uma ocasião de recordar, ou seja, colocar os livretos de cordel na corda da memória, numa espécie de literalidade da recordação, e arrastá-los pelo barbante da lembrança.
Certos anos a memória me trazia alegria, outros anos tristeza. Mas sempre estavas presente em cada uma das (co)memorações - e a memória era mesmo conjunta. Bem ou mal, estavas ali para trazer maiores sorrisos ou mais lágrimas causar.
Noutras épocas mais recentes, a memória permanecia, mas o ritual não se repetia. Tal qual beata que abandona a fé, larguei o culto, descuidando do festejo.
Este ano, relapsa como jamais havia sido, faltou-me pouco para esquecer a data por completo. Tu, porém, não permitiste.
Bons ventos primaveris te trazem. Tu vens no vento, nas flores. Tu vens na data, caminhando na corda-bamba da recordação, no vinte e três de setembro, perpetuando-o, tornando-o dia de não se esquecer.

quarta-feira, setembro 15, 2010

logro

Perdoa a falta de juízo
e o meu jeito indeciso
de quem quer se desvencilhar,
mas logo vai se emaranhar
nesses teus olhos complacentes
qual me dissessem: "Mente, mente
que é tao bom estar assim,
amo saber que é para mim
que o que falseias se destina."

Então te conto outra história,
pinto castelos na memória,
torno ruínas casos reais,
fantasio coisas tais
que até me ponho a acreditar.
Este ofício de encenar,
de ilustrar como te agrada
sem remédio, sempre fada,
causa uma crença que te anima.

Por ver-te alegre é que hesito
quando te minto ou te omito.
E se outra vez floreio
te convido a um passeio
no qual te falo que a verdade
não é feita de alardes
mas do que te feliz
e te juro, eternamente, ser atriz.



sábado, agosto 28, 2010

morangos

Os sonhos de quando
se dorme ou se acorda
são sonhos que mando
para que tu mordas
qual fossem morangos
os sonhos de quando
os olhos abri.
Vi
que o real o sonho possui
imaginário, flui
e flui...
Eu fui
contigo ao infinito.



let me take you down
cause I'm going to
strawberry fields
nothing is real
and nothing to get hung about
strawberry fields forever
(john lennon/paul mccartney)

Adoro morangos, com verdadeira devoção e, talvez por isso, tenham eles me aparecido em sonho. Não se cuidava, todavia, dos campos de morangos da canção, era o doce da fruta na boca, com mais gosto de realidade que de morango mesmo. Tratava-se da cor da fruta, a textura, o sabor em uma fidedignidade inacreditável e mágica. 
Em mim, o sono e o mundo se diluem, confundem-se cotidiana e repetidamente. Acordar de um sonho é como continuar a dormir na realidade rotineira de sonhar dia-a-dia, bem como ter sonhos noturnos se assemelha a vivê-los de olhos abertos.

terça-feira, agosto 24, 2010

hiatos

Sempre soube das tuas ausências, do teu não-estar, que outrora me aflingia e inquietava. Jamais duvidei, porém, da verdade dos teus sentimentos, ainda que não os compreendesse na sua integralidade. Cá, comigo, imaginava que há "gostares e gostares" e tu tinhas o teu jeito de querer bem.
Acostumei-me com teu silêncio e, por te amar com leveza e serenidade, amei também teus intervalos de mim, tuas fugas sempre constantes e já esperadas. Habituei-me a acumular histórias para te contar quando do teu regresso, ocasião em que as resumia em duas ou três frases e, após, permanecia na minha confusa alegria de te ter outra vez.
Hoje, no descompasso de amar com a gratuidade dos sentimentos mais puros, amo-te como quem joga sonhos ao vento, pondo minha fé na promessa de que o universo inteiro se empenha em prol dos sentimentos verdadeiros. Porque amar é desprendimento, e tem a liberdade como pressuposto, caminho no vácuo dos teus hiatos com convicção, reparando no outro hiato, que é, agora, o nosso destino, sem medo por ainda, talvez sempre, desconhecê-lo.