terça-feira, abril 06, 2010

espera

Espera
por uma longa era.
Mas, ao fim, você era,
era você mesmo o que quisera
eu?



Jamais imaginou que a espera se tornaria tão fiel companheira, vez que sempre se desesperou em razão de uma pressa constante, que lhe acompanhava a vida. Quando criança, era daquelas que, nas viagens em família, ocupava-se em perguntar a todo momento: "Já estamos perto? E agora? Estamos?".
Hoje, sabia que era capaz de esperar uma resposta por longos dias. Era-lhe possível gastar compridos meses com os olhos fixos no nada, muda e serena, no pacato mormaço do aguardo. Na ausência de vento, poderia aguardar com calma tamanha, a ponto de qualquer transeunte imaginar que se tratasse de uma mulher morta, mas de olhos vivos.
Só mesmo seus olhos denunciavam sobrevivência. Eram uns olhos rijos, qual flecha fincada no tronco de uma árvore, muito embora vivos de esperança, de quem espera e não cansa, numa espera firme e decidida.
Já havia escutado muito sobre amor e paixão, porém nada lhe havia marcado tanto quanto a metáfora "a paixão é uma espera de redes". Desde então, tinha plena convicção de que conhecia bem esse sentimento, que não tinha pressa de recolher suas redes, não obstante a calmaria das águas e o sobre-humano silêncio que havia sob elas. Passaria, pois, sem culpa ou arrependimento, anos a fio entre os fios trançados da espera, presa em seu emaranhado, enredada por vontade própria.