quinta-feira, novembro 18, 2010

há quem ame (a quem ame)

Quem quer que ame
queira você amar
queira você gostar
de querer
Ame por querer
ame por não escolher
quem você amará

Ame e, com você, leve
o que eu levo e você levará
o que quer que leve
em seu coração leve
sem peso, sem medo,
sem pesar

Leve, bem leve
quem quer que ame
ame bem, leve amor
quem quer que ame
ame, bem leve, amor.

sexta-feira, setembro 24, 2010

por mais uma estação



Talvez por coincidência ou, quem sabe, por vontade do destino, apenas tardiamente me foi possível perceber a data que o calendário marcava. Não dei por conta, de imediato, do teu aviso.
Ontem, equinócio de primavera, a lua, anunciando a estação que dava as caras, fazia-se formosa no céu. Era vinte e três de setembro, ah, perdoe-me, era início da primavera e custei a notar.
É que a vida anda agitada e pensamentos tolos ocupam todo o espaço, pouco resta para as boas lembranças. Os últimos acontecimentos afugentam a um canto estreito da mente os fatos vividos naquele vinte e três do passado, de modo que chega esta data tão mansa, sem se fazer anunciar por trombetas, que quase, por muitíssimo pouco, passou-se esquecida.
Agora, puxo o fio da memória. Como cordel com seus folhetos pendurados, chegam-me as lembranças e sinto, descontroladamente, vontade de sorrir.
Lembro-me do desconcerto daquele dia vinte e três do mês de setembro. Recordo-me de nossa timidez mútua e dos gestos descompassados, do tremor nas mãos e rubor das faces. Ocorre-me o medo que transparecíamos a cada movimento receoso, à espera de contrapartida, a cada riso nervoso. Como esquecer nossa insegurança e incerteza recíprocas? Guardávamos em nós a confusão de sentir, de uma só vez, a dúvida sobre o querer do outro e a convicção do querer próprio.
E o filme corria solto na grande tela, longe dos nossos olhares, mais distante ainda dos nossos pensamentos. De que falaria ele? Não nos importamos em descobrir, pois pairava outra dúvida mais inquietante. A minha, por certo, eras tu.
Já me tinham ensinado as aulas de geografia que, em ocasiões como aquele vinte e três, os dois hemisférios do planeta recebiam igual calor. De fato, se eras uma banda do mundo, eu era a outra e o calor que recebíamos era absolutamente idêntico, vindo de uma só fonte.
Foi assim que naquele equinócio, fantasticamente, senti toda a primavera num mesmo dia. Diante dos fatos, eu não poderia jamais cogitar outra estação mais colorida e perfumada.
Religiosamente, comemorei a data ao longo dos anos, como um feriado, uma festa de santo. Era o dia vinte e três sempre uma ocasião de recordar, ou seja, colocar os livretos de cordel na corda da memória, numa espécie de literalidade da recordação, e arrastá-los pelo barbante da lembrança.
Certos anos a memória me trazia alegria, outros anos tristeza. Mas sempre estavas presente em cada uma das (co)memorações - e a memória era mesmo conjunta. Bem ou mal, estavas ali para trazer maiores sorrisos ou mais lágrimas causar.
Noutras épocas mais recentes, a memória permanecia, mas o ritual não se repetia. Tal qual beata que abandona a fé, larguei o culto, descuidando do festejo.
Este ano, relapsa como jamais havia sido, faltou-me pouco para esquecer a data por completo. Tu, porém, não permitiste.
Bons ventos primaveris te trazem. Tu vens no vento, nas flores. Tu vens na data, caminhando na corda-bamba da recordação, no vinte e três de setembro, perpetuando-o, tornando-o dia de não se esquecer.

quarta-feira, setembro 15, 2010

logro

Perdoa a falta de juízo
e o meu jeito indeciso
de quem quer se desvencilhar,
mas logo vai se emaranhar
nesses teus olhos complacentes
qual me dissessem: "Mente, mente
que é tao bom estar assim,
amo saber que é para mim
que o que falseias se destina."

Então te conto outra história,
pinto castelos na memória,
torno ruínas casos reais,
fantasio coisas tais
que até me ponho a acreditar.
Este ofício de encenar,
de ilustrar como te agrada
sem remédio, sempre fada,
causa uma crença que te anima.

Por ver-te alegre é que hesito
quando te minto ou te omito.
E se outra vez floreio
te convido a um passeio
no qual te falo que a verdade
não é feita de alardes
mas do que te feliz
e te juro, eternamente, ser atriz.



sábado, agosto 28, 2010

morangos

Os sonhos de quando
se dorme ou se acorda
são sonhos que mando
para que tu mordas
qual fossem morangos
os sonhos de quando
os olhos abri.
Vi
que o real o sonho possui
imaginário, flui
e flui...
Eu fui
contigo ao infinito.



let me take you down
cause I'm going to
strawberry fields
nothing is real
and nothing to get hung about
strawberry fields forever
(john lennon/paul mccartney)

Adoro morangos, com verdadeira devoção e, talvez por isso, tenham eles me aparecido em sonho. Não se cuidava, todavia, dos campos de morangos da canção, era o doce da fruta na boca, com mais gosto de realidade que de morango mesmo. Tratava-se da cor da fruta, a textura, o sabor em uma fidedignidade inacreditável e mágica. 
Em mim, o sono e o mundo se diluem, confundem-se cotidiana e repetidamente. Acordar de um sonho é como continuar a dormir na realidade rotineira de sonhar dia-a-dia, bem como ter sonhos noturnos se assemelha a vivê-los de olhos abertos.

terça-feira, agosto 24, 2010

hiatos

Sempre soube das tuas ausências, do teu não-estar, que outrora me aflingia e inquietava. Jamais duvidei, porém, da verdade dos teus sentimentos, ainda que não os compreendesse na sua integralidade. Cá, comigo, imaginava que há "gostares e gostares" e tu tinhas o teu jeito de querer bem.
Acostumei-me com teu silêncio e, por te amar com leveza e serenidade, amei também teus intervalos de mim, tuas fugas sempre constantes e já esperadas. Habituei-me a acumular histórias para te contar quando do teu regresso, ocasião em que as resumia em duas ou três frases e, após, permanecia na minha confusa alegria de te ter outra vez.
Hoje, no descompasso de amar com a gratuidade dos sentimentos mais puros, amo-te como quem joga sonhos ao vento, pondo minha fé na promessa de que o universo inteiro se empenha em prol dos sentimentos verdadeiros. Porque amar é desprendimento, e tem a liberdade como pressuposto, caminho no vácuo dos teus hiatos com convicção, reparando no outro hiato, que é, agora, o nosso destino, sem medo por ainda, talvez sempre, desconhecê-lo.