terça-feira, abril 06, 2010

espera

Espera
por uma longa era.
Mas, ao fim, você era,
era você mesmo o que quisera
eu?



Jamais imaginou que a espera se tornaria tão fiel companheira, vez que sempre se desesperou em razão de uma pressa constante, que lhe acompanhava a vida. Quando criança, era daquelas que, nas viagens em família, ocupava-se em perguntar a todo momento: "Já estamos perto? E agora? Estamos?".
Hoje, sabia que era capaz de esperar uma resposta por longos dias. Era-lhe possível gastar compridos meses com os olhos fixos no nada, muda e serena, no pacato mormaço do aguardo. Na ausência de vento, poderia aguardar com calma tamanha, a ponto de qualquer transeunte imaginar que se tratasse de uma mulher morta, mas de olhos vivos.
Só mesmo seus olhos denunciavam sobrevivência. Eram uns olhos rijos, qual flecha fincada no tronco de uma árvore, muito embora vivos de esperança, de quem espera e não cansa, numa espera firme e decidida.
Já havia escutado muito sobre amor e paixão, porém nada lhe havia marcado tanto quanto a metáfora "a paixão é uma espera de redes". Desde então, tinha plena convicção de que conhecia bem esse sentimento, que não tinha pressa de recolher suas redes, não obstante a calmaria das águas e o sobre-humano silêncio que havia sob elas. Passaria, pois, sem culpa ou arrependimento, anos a fio entre os fios trançados da espera, presa em seu emaranhado, enredada por vontade própria.

domingo, março 28, 2010

três

Hoje eu poderia preparar um café pra três
Desperdiçar sorrisos e encarar uma partida de xadrez
Poderia, a contragosto, perder gosto por meu chá
Ficar fazendo hora em nosso eterno "à trois", mas não
Mas não sei dizer, de modo exato, o que te fez partir
pra um lado tão escuro, eu tive medo, eu quis te impedir
Justificar que os erros caberiam em minha mão
e nada eles seriam dentro do teu coração, que é tão
Tão grande era o mar e o seu abraço bom
Bom mesmo era verão e, de janeiro, era bom o som
do teu violão e da conversa de nós três:
eu, você e o amor
Eu perderia mais um mês.

quinta-feira, março 04, 2010

cronologia de um amor

Um começo nas páginas de um diário

Eu vejo sinais no céu e nas minhas mãos. Prenúncios, sutis mensagens, que me anunciam que tudo dará certo. Não é preciso fé, pois tudo já está como que pronto. Os caminhos se cruzaram poeticamente. Não há medo. Não há passos em falso no cimento colocado há pouco.
Ah, tudo vai bem. Até o vento me faz sorrir... Acredito piamente em intuição e sensibilidade, seja esta minha ou dos outros.
Eu leio o melhor caminho nas coisas que meus olhos miram. Eu encontro evidências e conselhos a todo tempo. O mundo inteiro tem cheiro de pêra, que é o cheiro que eu mais gosto de todos os cheiros. O mundo  é bom.

Um meio numa conversa 

- Você não pode estar falando sério.
- Juro que estou.
- Falta de interrogações.
- Olhe aí! Outra vez uma pergunta sem interrogações. Você deveria ter dito "Falta de interrogações?". Mas não. Vem com um "Falta de interrogações" seco. Por favor!
- Isso não é nem nunca será razão para uma discussão.
- A falta de interregoções, em uma conversa escrita ou oral, é terrível. Não nota a crueldade de um diálogo assim? Não há maior indício de que não se interessa em nada na conversa.
- Você quer complicar as coisas.
- Se isso foi uma pergunta, quero sim.


Um fim num poema

Vai embora devagar
que a noite hoje já
é tão alta, meu bem.
Em grave voz,
grave bem o amor que nós
construímos, mas também
grave este instante
antes que o galo cante
e a noite vá. Grave
a gravidade no meu rosto
e o gosto, o gosto
de saber que já não há.
Grave esta sala de estar
e o nosso último jantar,
grave aquilo que está
nos consumindo.



sábado, fevereiro 20, 2010

mais cara, mais rosto

"E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara."
Clarice Lispector em Felicidade Clandestina



De fato, não é que haja uma máscara que esconde teu rosto. A máscara não é um objeto interposto entre tua face e a minha. Não. O teu rosto é a máscara mesma.
Quero, com isso, dizer que não tens uma cara, assim, de carne e osso, não tens. É por isso que não podes dar a cara à tapa, não podes arriscar. É pelo mesmo motivo que não posso chamar-te cara de pau, indignada com os atos teus que desaprovo.
Se não tens cara, que poderia eu esperar? Vergonha na cara? Naturalmente que não. Sem rosto, não terias onde pôr a tal vergonha.
Por mais triste, só possuis este disfarce que te veste a face que não tens. Não posso, assim, dizer que escondes, atrás de todo esse papel machê, uma real identidade. Compadeço-me porque sequer podes fingir ser quem não és.
O carnaval passa e, enquanto todos guardamos fantasias, plumas e confetes para o outro ano, tu permaneces mascarado, alongando para sempre tua folia solitária.
De cá, continuo compenetrada na tua máscara, sentindo por jamais te poder conhecer a fundo. É que, se quem vê cara não vê coração, imagine-se, então, quem nem cara vê.


quarta-feira, fevereiro 17, 2010

aperto















Em uma noite das mais quentes de um verão morno, estava deitada à cama, de olhos cerrados, experimentando as carícias de uma brisa tímida. A casa era um silêncio de sombras longas e as pálpebras pesavam como se houvesse uma venda sobre elas.
Nada em volta: nenhuma companhia, nenhum barulho. O ar seco, noite adentro, invadia-lhe os pulmões, inebriando-a num sentimento sem definição. Não se parecia com o aperto da saudade, que tantas vezes lhe contraiu o peito. Não chegava perto de ser tristeza, pois nada tinha de aperto na alma, aquele aperto apto a extrair lágrimas dos olhos. Não se tratava também de medo, que mais parece um aperto nas entranhas, revirando e arrancando as vísceras. Tampouco era felicidade, aquela que nos estampa um sorriso, dentes à mostra, apertando-nos os olhos, tornando-os pequeninos, perdidos na face.
As cortinas, nesse intervalo, dançavam, no quarto negro, um balé sem holofotes. Subiam e desciam numa sincronia magistral e o vento, agora, cantava uma canção branda, cheia de singeleza.
O sentimento traduzido num aperto sem nome lhe acompanhava a respiração, permanecia no ar com a quietude de quem vela o sono de uma criança ao berço. Tratava-se da magia dos sentimentos anônimos, que retirava o chão, a cama, e fazia todo o corpo levitar na penumbra, suspenso em um aperto que agarrava cada poro, erguia cada célula do corpo até que fosse a luz da alcova acesa.