sexta-feira, junho 01, 2012

chega de saudade, chega com saudade

A falta de toque, de cheiro, de materialidade traduz o que se entende por saudade. Saudade é mesmo isso, é toda essa ausência, o vazio que me toma o íntimo, o silêncio que, calado, pesa. Saudade é não ser, não estar, são essas reticências sem fim, indefinidas, inquietantes.
Então saudade se torna impaciência, ansiedade, tique-taques de um relógio lento demais, cujas horas se demoram, avançam como caminhassem para trás. Torna-se a saudade dias riscados no calendário, contagens regressivas constantes ou uma respiração nervosa, que, do meio para o fim, não vem. Pára. E, de fato, se a saudade é como a respiração, a respiração é como a saudade, paralisando tudo em volta.
Chega mais um dia e o nó na garganta está ali. Certifico-me de que a ausência é persistente e não menos cruel. Fito os meus dedos, já cansados de contar o tempo e vejo neles nosso elo. Creio, então, que logo mataremos a saudade, com um veneno ou coisa afim que, calmamente, retire-lhe a vida, roubando-lhe o ar. Enfim, serei mais eu, seremos mais nós dois, sem saudade ou só com a lembrança dela, memória de quem já se foi.


sexta-feira, março 16, 2012

por entre os dedos

música para leitura



havia algo de escorregadio 
de ensaboado
de esguio
de leve demasiado
que se lhe escapava entre os dedos.

Já recebera o diagnóstico. Tratava-se de dependência emocional, carência afetiva ou, como dissera a amiga mais próxima, desespero. E não havia motivos para tanto - continuava a amiga - era apenas mais um dos relacionamentos que dava errado, como todos os outros. 
Preocupante, pois o problema não poderia ser o resto inteiro do mundo, mas era ela, era a moça o problema, o grande desastre não era ninguém, outro alguém, era ela. 
Começava, apegava-se, cercava o rapaz de cuidados, construía-lhe uma cerca ao redor, isolava-o do mundo, sufocava-o, via o fim. Chorava e mais uma vez começava, seguia os mesmos trâmites e encontrava a companhia da frustração, sempre da mesma maneira, quando outra vez chorava. Corria riscos, entregava-se, fazia-se transparente, franca, no entanto, algo sempre lhe fugia ao controle como tivesse vida própria, desregulava o conto de fadas e a receita do bolo falhava.
A amiga retrucava que era o cheiro do desespero que ela exalava, era o nome do desespero que houvera escrito na própria testa para quem quisesse ver. 
Revoltada, jurou não mais amar, não se envolver com quem fosse, havia cansado dos romances sempre tão distantes dos filmes. As suas histórias davam trabalho, roubavam-lhe o sono, a concentração, sempre curtas e dolorosas.
A amiga assegurava, insistia que a culpa era do desespero tão evidente, repetindo sua opinião em tom de repreensão...
Eis que surge um outro rapaz, tão diferente dos outros - curiosamente sempre era esse o primeiro pensamento da moça -, tão diferente! Agora há de dar certo, claro. Evidente que sim! "Como pude pensar em desistir do amor?".
A amiga não tira da cabeça que o desespero ainda é patente e se impressiona que a moça ainda ouse tentar. Acha que a verdadeira virtude não é ser corajosa mas tonta o suficiente e confirma a veracidade do diagnóstico: a dependência emocional deve mesmo ter algo de vício.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Entre o Código Penal e a natureza





Um texto para os iniciados nas letras jurídicas

Quando ela me veio visitar, envolviam-me a emoção e paixão do artigo 28 do Código Penal, aquelas que, pela letra fria da lei, não excluem a culpabilidade.
Não havia saída ante o fato de que todos somos criminosos por amar, culpáveis por nos deixarmos possuir pela emoção. Infratores todos somos, incluso o pequenino animal visitante. A joaninha foi partícipe, induzindo-me à escrita, convencendo-me a incorrer no grande crime que é a poesia. A miúda me fez errar, cair na reincidência de voltar a escrever.
É verdade que a emoção e paixão não excluem a culpabilidade, pois, de mim, era exigível conduta diversa, era imperioso que houvesse resistido à tentação do erro, ao encanto das letras. Não resisti, porém, e nada me exime da responsabilidade penal.
Do mito da ressocialização sou a maior prova. Cumprida a primeira pena, retorno à delinquência, volvo ao crime sem remorsos, por não conseguir me desvencilhar do encanto que há em saber-me avessa às expectativas sociais. Criminosa até que provem ao contrário - oposta, pois, a tudo, mesmo à presunção de inocência -, a palavra é meu crime, minha pena, meu algoz.

segunda-feira, abril 25, 2011

samba em prosa




Não fossem as incontáveis coincidências terem acontecido conosco, não haveríamos de crer, custaríamos a aceitar a possibilidade de havermos perdido a cadência habitual das nossas vidas em razão de uma enxurrada de sentimentos repentina a revirar nosso íntimo de maneira tal.
Decerto tenho caído na tua graça, naturalmente, como quem cai no samba e se deixa levar noite adentro. Tocando, tu me tocas o coração, fazes música em mim e, tocando-me a mão, tu me convidas para dançar. 
Longe da razão, encanto-me quando cantas despretensioso, dedilhando, olhando-me malandro, sinuoso como a melodia. No teu ritmo, escorregam leves os meus pensamentos, dançarinos perseguem a tua música, envolvidos no teu som, deslizando até ganharem o infinito.
Começamos de Chico compartilhando a Homenagem ao malandro, sem que pudéssemos então prever que, em verdade, homenageávamos todas as compatibilidades que assomavam diante de nós, tornando tão bela essa nova história que agora nos empenhamos em musicar.
Não quero desafinar, não posso descuidar do compasso, não vou estragar a canção que temos acertado com tanto esmero. Cada nota e o menos perceptível acorde tenho guardado, posto no pentagrama, cuidado de cada pequeno grama, de toda minúscula gota do teu sorriso, do teu barulho bom.

sexta-feira, março 11, 2011

um pedaço seu

Deixe um pedaço seu
num recado, desenho, num retrato
ou eu
eu nem sei.
Deixe um pedaço seu
numa frase, num abraço, fraise, que me cale
e eu
eu já sei.




Eu dançaria, por horas a fio, no diálogo quase nervoso, asfixiante como o ar que é puro demais. Mais uma vez, sem rodeios ou disfarce, eu beberia de você, com uma sede leve e constante, pousando em ti meu olhar ansioso, como quem tivesse medo de ver a fonte se esgotar. 
Ainda novamente eu escutaria uma música marcante, deparando-me com você, reflexo meu, sentindo igual, dividindo comigo o que tínhamos de mais precioso: nossas ideias secretas, pensamentos íntimos e sonhos, tudo espécies da loucura que nos assola, humanos que somos, eternos que somos.
Eu te veria transbordar mais, derramando tuas águas no papel, criando formas, traduzindo sentimentos, traçando irrealidades a ponto de fazê-las concretas em preto e branco. Eu te contemplaria como o mar de águas violentas e sem fim, surpreendendo-me com a calma que nasce do caos, que tuas mãos reduziriam a contornos negros. Eu ouviria, com contentamento, tua concretude inventada, teus planos mitológicos, tuas explicações do mundo sem pensar em discordar e já discordando sem pensar.
Eu esperaria um pedaço seu, deixando um meu, sabendo que mais à frente nos encontraremos. Por estradas diversas, chegaremos, fatalmente, a um lugar em comum para o próximo abraço apertado.